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Brasil e Argentina Marcos Arruda Boletim do Plebiscito da Dívida Externa, 2001
"Eu sou você amanhã"
Que não haja ilusões: o Brasil é tão vulnerável como a Argentina a uma crise cambial. Lá e aqui, a causa é a política econômica escrava do pagamento da dívida; e a saída seria um novo paradigma de desenvolvimento, articulado entre os dois países e voltado para seu futuro e o de todo o Cone Sul
"A Argentina privatiza suas águas e seu ar, e oferece pedaços do seu território nacional aos credores, a fim de preservar sua credibilidade junto aos investidores internacionais e garantir a continuidade dos fluxos financeiros do exterior".
Esta manchete é o que se chama uma ficção política. Mas não está longe de tornar-se realidade. Dez anos fatídicos de governo Menem liquidaram o patrimônio do setor público argentino. No primeiro semestre de 2000, logo no início do governo de um outro Fernando, – o De la Rúa – , a Argentina estremeceu diante do risco de uma saída maciça de capitais estrangeiros do país. De la Rúa havia recebido como herança de Menem um déficit fiscal de US$ 8 bilhões e um PIB 3% inferior ao de 1998.
Não podendo desvalorizar o peso, que já está desfigurado pela sua paridade artificial com o dólar, e não tendo mais patrimônio estatal para entregar à ganância estrangeira, restou ao novo governo criar um pacote devastador para os direitos duramente conquistados pelos trabalhadores argentinos. Tratava-se de aumentar a fatia do bolo da renda nacional que vai para o capital (sobretudo estrangeiro), tirando mais um pouco da fatia que corresponde à classe trabalhadora. Foi o primeiro momento em que o povo argentino, logo após eleger De la Rúa, sentiu vontade de mandá-lo "para la rua".
Cortar salários, para pagar juros
Os planos dos dois governos Menem e do FMI não fizeram mais que adiar a crise. Em abril de 1991, o ministro Domingo Cavallo implementou o plano de convertibilidade. Adotou o sistema de câmbio fixo, atando o peso ao dólar e garantindo a paridade de um para um. A inflação despencou mas o país iniciou um processo de subordinação monetária e ficou sem cacife para exportar. A economia não progrediu. A crise de 1994 no México abalou a aparente estabilidade (como no Brasil). O Governo reduziu o salário do funcionalismo entre 10-20% e o PIB caiu 4,4%. Em 1997, a recessão acentuou-se com a crise asiática, e agravou-se ainda mais com a crise russa de agosto de 1998. O Brasil seguiu trilha semelhante, com um pequeno retardamento devido ao tamanho da sua economia. A crise brasileira de janeiro de 1999 sacudiu fortemente a economia argentina, gerando nova crise da sua balança comercial e acelerando a crise. Em dezembro de 1999, a Argentina apresentava taxa oficial de desemprego acima de 14%. Em maio de 2000 o Governo De la Rúa lança novo pacote reduzindo o salário de 140 mil trabalhadores, a pretexto de "economizar" US$ 938 milhões. Eufemismo para encobrir a verdadeira razão do arrocho salarial: liberar parcela maior do orçamento federal para o pagamento das dívidas.
Outro pacote foi anunciado no início de outubro para reduzir impostos e reativar a economia, em recessão há 2 anos de meio. Nenhum efeito. Em 4 de novembro um terremoto abalou o mundo político e financeiro argentino. O epicentro foi o ex-presidente do Partido Radical ("radical", neste caso, quer dizer neoliberal) Raul Alfonsin, que afinal disse algo de bom senso: a Argentina devia declarar moratória da dívida externa por dois anos para poder investir em seu futuro os US$ 20 bilhões anuais que transfere para o exterior. Em reação a tamanho bom senso (logo desmentido por Alfonsin como "brincadeira" num momento informal de descontração), as bolsas caíram, os investidores estrangeiros se inquietaram com o risco de o bom senso contaminar o Presidente da República, e, como sempre acontece, o mundo financeiro brasileiro também começou a estremecer.
Em 11 de novembro, as manchetes anunciam: "Argentina privatiza saúde e previdência, com apoio de FMI e BIRD". Os jornais dizem que a crise é "de credibilidade nacional". Mentira. A crise é de estabilidade socioeconômica, financeira e política, gerada pelo excessivo endividamento, pelo modelo político econômico marcado pela desigualdade e pela excessiva dependência do capital externo e – só em conseqüência disso – pela vulnerabilidade do país aos humores dos credores e dos investidores internacionais. O ministro da Economia, José Luis Machinea, desmentiu Alfonsín, falou da necessidade de a Argentina cumprir fielmente os pagamentos "para ter credibilidade no mercado internacional" e anunciou que vai vender US$ 1,1 bilhões em títulos do Governo Argentino. A venda foi realizada a juros estratosféricos para o país - 16% ao ano. Na mesma semana o Brasil vendeu US$ 874 milhões em títulos do Tesouro a 18,5% ao ano! Confirma-se que os investidores externos confiam ainda menos no Brasil do que na Argentina!
"Ajuda" ou desmonte?
Chega a 16,4 bilhões de dólares o pacote que as instituições financeiras multilaterais estão preparando para evitar que o país se torne inadimplente, e a crise afete seus credores. O FMI participaria com US$ 7,4; o Banco Mundial com US$ 4 bi (que deveriam destinar-se, por mandato estatutário do banco, ao "desenvolvimento" do país tomador); megabancos privados transnacionais entrariam com US$ 3 bi e Tesouro dos EUA com os restantes US$ 2 bilhões. O governo norte-americano, porém, tem relutado em participar da operação, talvez para empurrar a Argentina abismo abaixo, forçando a dolarização unilateral. Em contrapartida à "ajuda", o governo argentino será forçado a cortar ainda mais os gastos públicos mediante um conjunto de medidas:
- Privatização do sistema público de saúde a partir de 2001. Por decreto do Executivo.
- Privatização do sistema de previdência social, garantindo apenas que os benefícios mais baixos serão complementados, até atingir 300 pesos.
- Aumento da idade mínima para aposentadoria das mulheres, de 60 para 65 anos, a partir de 2002.
- Acordo com governos provinciais para impedir aumentos de gastos nos próximos 5 anos (prazo superior ao mandato dos atuais governadores!).
- Privatização dos serviços de cobrança da Receita Federal.
"Quanto mais pagamos, mais devemos"
A população levanta protestos. O que ninguém diz é que a Argentina, mais uma vez, estará tomando este mega-empréstimo para pagar as dívidas anteriores, e não para investir no seu próprio desenvolvimento nem para criar um excedente que permita pagar esta nova dívida! Este é o núcleo central da irracionalidade da política macroeconômica do país-irmão. Nada diferente do círculo vicioso que caracteriza a política financeira do Brasil nas duas últimas décadas. Não é de surpreender, pois, que em ambos os países, "Quanto mais pagamos, mais devemos".
Se o Brasil tomasse consciência do refrão "Eu/Brasil sou Você/Argentina Amanhã", que corresponde à sua experiência histórica no campo socioeconômico das últimas duas décadas, talvez pudesse prevenir-se de continuar a seguir o caminho que leva "à beira do abismo" (palavras do governador da Província de Buenos Aires, ao tentar em 11/11/00 convocar, contraditoriamente, a população a apoiar o novo acordo De la Rúa-FMI). Duas décadas de ajustes negociados com o FMI e o Banco Mundial resultaram numa das mais insistentes recessões de sua história e numa situação literalmente falimentar de suas finanças públicas. Por que? Porque a Argentina insiste em modelar-se em função da prioridade, primeira e única, de agradar seus credores externos, pagando em dia a dívida externa, que não pára de aumentar, e fazendo toda sorte de agrado ao capital estrangeiro para "manter sua credibilidade" junto a ele. Exatamente o mesmo que tem feito o governo FHC nos seus dois mandatos. Na verdade, para os governos da Argentina e Brasil a opção de prestar mais atenção à credibilidade frente aos investidores externos do que à credibilidade frente aos seus respectivos povos não tem outra saída senão uma dívida sempre maior e o aumento proporcional da devastação econômica, social e ambiental do país.
Abandonar a conversibilidade e mudar de rumo
A curto prazo, o mais sensato será a Argentina abandonar a lei de conversibilidade de 1991 e restabelecer sua moeda, e pelo menos em parte, sua soberania nacional. A outra opção, estratégica, é mudar de rumo, adotando um novo paradigma de desenvolvimento, centrado nas necessidades econômicas e sociais das duas nações e nos recursos naturais, humanos e financeiros que elas possuem. Isso implica rejeitar a parcela da dívida que já foi julgada como ilegal e espúria (caso argentino), fazer uma minuciosa auditoria com participação de organizações sociais de notório saber (caso brasileiro) e centrar os investimentos em reerguer as economias de ambos os países. Isso incluiria promover reforma fiscal e tributária verdadeiras, voltadas à redistribuir de renda e riqueza; e consolidar as bases para um desenvolvimento genuinamente democrático e sustentável, para si próprios e para a sub-região do Cone Sul!
Mas se nada do que De la Rúa está cedendo ao FMI der certo, a Argentina ainda terá outro recurso. Ela poderá subcontratar o próprio FMI para governar o país, garantindo definitivamente a confiança dos investidores estrangeiros. De la Rúa dirá então outra vez, como fez em 10 de novembro: "Agora é o momento de defender o interesse nacional!"
De mal a pior
FMI é sinônimo de mais crise social
Argentina:
Entre maio de 1999 e maio de 2000, a proporção dos pobres na Região de Buenos Aires (população total: 12milhões) aumentou de 27,1% para 29,7%. 340 mil pessoas passaram da classe média para baixo da linha de pobreza argentina, que inclui os que têm renda inferior a 120 dólares. Vale lembrar que o salário mínimo brasileiro equivale hoje a apenas US$ 75...
Na capital, Buenos Aires, a proporção de pobres passou de 8,5% para 10,8%. Nas regiões mais pobres da região metropolitana, a pobreza alcança 44% dos 4 milhões de habitantes.
Em todo o país, a pobreza afeta 14 milhões dos 37 milhões de argentinos, ou 36% da população. Segundo pesquisa da consultoria Equis, a cada dia mil pessoas tornam-se pobres no país.
A taxa de desemprego, resultante da recessão prolongada provocada pelas políticas do ajuste à moda do FMI é de 15,4%, mas pode chegar a 16% até o fim de 2000. Que início de novo século e milênio para um povo que já foi dos mais afluentes do Continente!
Brasil:
Entre 1998 e 1999 a proporção de pobres aumentou de 32,7% para 33,9%, segundo o IPEA. O Brasil, sempre batendo recordes, em matéria de pobreza e desigualdade. 55,6 milhões de brasileiros estão vivendo com menos de 100 reais por mês. Cerca de 3 milhões (quase uma Buenos Aires inteira) tornaram-se pobres no ano da desvalorização do real.
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