Introdução por Marcos Arruda
Hilary Wainwright tem grande mérito ao coordenar a publicação de um livro que busca esclarecer as razões porque a liderança do Partido dos Trabalhadores foi capaz de converter o PT de um partido de massas, socialista e democrático, enraizado na população e orientado para a transformação político-social, num partido eleitoreiro tradicional; e porque o governo liderado por um ex-camponês e operário metalúrgico nordestino, Luiz Inácio Lula da Silva, tem feito alianças que destroem sua capacidade de governar em coerência com a plataforma de governo e a missão original do PT. Hilary levanta as boas questões. Ler suas perguntas é usufruir de uma lição de política participativa. E ela o faz de um modo não dogmático, construindo o livro na forma de um diálogo não apenas dela com os entrevistados, posicionados em diferentes partes do espectro político da esquerda brasileira, mas também numa interessante conversa entre eles e elas. Ao entrevistar um bom número de atuais e antigos membros do PT, Hilary quer saber as opiniões deles, mas suas perguntas sempre se relacionam com as propostas originais do PT, de ser instrumento de um processo que leve a um Brasil democrático, participativo, igualitário, sustentável, fraterno e feliz.
Desde logo, devo esclarecer minha motivação em aceitar o convite de Hilary e sua equipe para escrever a introdução deste livro. Fui membro ativo do PT desde antes de ele nascer. Participei dos debates sobre sua criação quando eu ainda estava no exílio. Trabalhei muitos anos como economista de assuntos internacionais, ligado à secretaria de relações internacionais do partido. Isto, até setembro de 2005. Depois das eleições internas, nas quais apoiei a candidatura de Plínio de Arruda Sampaio, senti-me definitivamente frustrado com a vitória daqueles que, tendo sido responsáveis diretos por 'afundar' o PT, estavam agora propondo 'refundá-lo'... Parei de ser militante ativo. Também não me liguei ao Partido Socialismo e Liberdade, apesar do convite da sua digníssima fundadora, a Senadora Heloisa Helena, e de outros amigos e companheiros. Escolhi intensificar meu compromisso de trabalho na educação e organização da sociedade civil, como tenho feito através do PACS e dos vários movimentos e redes a que pertenço.
Uma coisa a considerar ao discutir o PT é que o partido foi incapaz de fazer um 'furo' conceitual e organizativo como partido hegemônico no governo. A razão disso foi que suas lideranças não compreenderam a mudança de era que ocorreu com a globalização neoliberal, da era industrial e produtivo-mercantil para a era do conhecimento e da financeirização globalizada. Esta mudança está na raiz do desemprego estrutural e da gradual supressão dos direitos trabalhistas, conquistados através de duras e dolorosas lutas pelas gerações anteriores de trabalhadores; ela teve profundos impactos na configuração das classes sociais no capitalismo contemporâneo e na divisão internacional do trabalho.
O livro contribui para a recapitulação da história e a configuração atual do movimento popular e do PT. A metamorfose por que passou o partido na última década tem gerado um certo número de divisões: entre os que acreditam que o partido e o governo ainda são instrumentos de transformação social, e de promoção da sociedade civil a protagonista do seu próprio desenvolvimento, e os que já não acreditam nisso; entre os que ficaram e os que saíram do PT; entre os que desejam construir um novo partido e os que acreditam que a era dos partidos políticos já acabou, e que novas formas de participação social na política estão emergindo e prevalecerão ao longo do século XXI. Contudo, estas clivagens, sobretudo no contexto de um governo hegemonizado pelo PT, implicam num tremendo desperdício de energia humana e enfraquecem o bloco histórico que incorpora a urgência de uma profunda transformação social. Os líderes do partido e do governo fracassaram ao desperdiçar a oportunidade histórica de liderar o Estado brasileiro com o fim de inaugurar um processo sistemático de educação para uma nova cidadania. Tal processo envolveria um contato constante com as massas da população e, em particular, com os líderes dos movimentos populares.
Hilary adota a perspectiva da democracia participativa, proposta pelo PT desde suas origens como cerne da sua missão histórica, como referência para as entrevistas. Seu argumento sobre a independência do PT como condição para sua eficácia em transformar o Estado e suplantar a prática política da corrupção é crucial. Ele é retomado em entrevistas como as de Chico de Oliveira e Marco Aurelio Garcia, mas estes deixam de lado um elemento-chave para tornar real a independência partidária: a proposta de que militantes que são trazidos para cargos governamentais renunciem a cargos de liderança partidária enquanto estão no governo. Eu próprio apresentei esta proposta a Lula e Dirceu inúmeras vezes, assim como a outros dirigentes partidários, mas encontrei sempre ouvidos moucos. A justeza da proposta parece clara: a grande maioria dos militantes do PT permaneceram na sociedade civil; para que exerçam um monitoramento crítico e construtivo da ação governamental, devem eleger seus próprios líderes que estejam suficientemente distantes do governo e próximos das bases para poderem influenciar sem serem cooptados. O que aconteceu foi o contrário, e o resultado foi inevitável: o partido confundiu-se com o governo e tornou-se correia de transmissão deste (Garcia). E mais: a liderança partidária, gozando de crescente autonomia em relação às bases, criou uma máquina dentro do governo para cooptar dinheiro do Estado, usando o poder estatal também para extrair recursos do mundo empresarial! (Garcia).
Outro aspecto crucial do fracasso do PT e do governo Lula em constituirem-se em fatores de transformação socioeconômica é a falta de um projeto claro de desenvolvimento para o Brasil. A consequência é deixar o Brasil presa dos caprichos do capital volátil e das estratégias corporativas das transnacionais. Chico de Oliveira, Marco Aurelio Garcia e Leda Paulani estão entre os que discutem esta questão no livro. Há um precedente para esta falha: a falta, por parte do movimento sindical de onde Lula procede, de uma visão alternativa de hegemonia de um projeto socioeconômico conduzido pelos trabalhadores.
O livro revela que, pelas entrevistas com militantes e dirigentes petistas ao longo de alguns anos, Hilary aprendeu a acreditar que o PT estava convencido das capacidades do povo e do seu potencial de realizar mudanças. É neste sentido que muitos falam da necessidade do PT de um "retorno às origens", e não no sentido de atrasar os ponteiros da história: relançar as raízes do partido nos movimentos populares, apoiar o empoderamento do povo para tornar-se o principal protagonista do poder econômico e político, reduzir o Estado a mero orquestrador de uma sociedade consciente e organizada que comanda o processo de transformação econômica e social. A inversão deste conceito pela liderança do Campo Majoritário, encabeçado por Lula e Dirceu, confirma-se nas entrevistas de Oded Grajew, Orlando Fantazinni, Leda Paulani, e nas entrelinhas até da do assessor especial do Presidente Lula, Marco Aurelio Garcia! O objetivo de ganhar o poder do Estado para lançar um processo de transformação das relações e estruturas socioeconômicas injustas, desiguais, autocráticas e insustentáveis que vigoram no Brasil cedeu lugar a um projeto de poder pelo mero desejo de poder. A questão não era simplesmente ganhar as eleições presidenciais, mas também, e principalmente, dar "uma real contribuição ao desenvolvimento de um contrapoder democrático popular sem o qual o sucesso eleitoral estaria destinado a fracassar".
A democracia está presente em todo o livro. Para Hilary, a crise do PT enfatiza que "a democracia no partido visando uma transformação radical e socialista precisa consistir de muito mais do que o direito a formar tendências; precisa dar expressão e espaço às inovações e experiências de ativistas partidários nas frentes de luta pela mudança e aos movimentos e associações com quem eles trabalham". Isto se liga à questão do poder.
A verdadeira democracia estava no coração dos valores e comportamentos do projeto social do PT quando este foi criado e durante a sua primeira década de atividades. "Partilhar o poder com os movimentos de onde ele veio" (Celso Daniel) era a base dos experimentos do PT com a democracia participativa. A consciência de que um partido autenticamente transformador não tem o monopólio da verdade nem do processo de mudança social é outro pressuposto que informa uma postura de transparência, abertura à crítica, e incorporação ativa na "dinâmica inovadora dos movimentos sociais".
Um ponto de intensa discussão que atravessa muitas das entrevistas é o que é que realmente é possível mudar num mandato de quatro anos. Esta questão tem pelo menos dois ângulos de abordagem. Um é o ponto de partida do mandato; Leda Paulani o analisa com muita propriedade. Quando Lula tomou a posição de Presidente da República, diz Leda, mesmo a direita e as elites econômicas e financeiras "haviam incorporado as prometidas reformas em suas análises e projeções. Portanto, no início Lula tinha muito espaço político para fazer as mudanças que prometera. Mas ele não usou este espaço". O outro é o fato de que o possível não é uma situação estática, mas sim dinâmica que depende da correlação de forças no interior da sociedade e muda com o fluxo da história. Quando um partido e um governo estão realmente comprometidos com a transformação social, eles usam o poder do Estado - um instrumento efetivamente muito poderoso - para trabalhar pela mudança da correlação de forças em favor da mudança social. Um bom exemplo contemporâneo são as iniciativas do governo Evo Morales para retornar os recursos naturais da Bolívia para as mãos da nação e do povo desse país, apesar da poderosa oposição das elites bolivianas e transnacionais.
Uma das contribuições mais ricas do livro vem de Gilmar Mauro, do MST. A última entrevista do livro é dele. Partindo da crítica à liderança do PT e do governo pelas alianças equívocas, que obrigaram o partido a abandonar seu programa de reformas, ele lembra os leitores que o governo Lula não fez as reformas pretendidas e que estavam ao seu alcance, como a reforma agrária, a urbana e os investimentos sociais capazes de mudar substancialmente a situação da maioria; ao mesmo tempo, o governo apresentou e implementou 'contra-reformas' inspiradas pelo FMI, gravemente prejudiciais à maioria trabalhadora, aos servidores públicos e à massa crescente de jubilados.
A reflexão mais rica de Mauro, contudo, tem a ver com visão, estratégias e táticas para a construção de um futuro melhor com o povo brasileiro. Sua mensagem central é a mobilização dos movimentos populares e suas lideranças para educar e organizar as massas por meio da inovação, da criatividade, da introdução de novas formas de comunicação, artes visuais, teatro, música, além de experimentos concretos de participação popular em políticas inovadoras e na produção, trocas e finanças solidárias. Ele insiste na importância da autonomia do movimento popular em relação aos partidos e ao Estado. Fala de iniciativas como os conselhos populares, os núcleos e a Consulta Popular, cujo potencial de gerar uma nova maré de atividade cidadã transformadora e, a médio prazo, uma nova hegemonia.
Desejamos que este livro ajude as esquerdas a refletir profundamente sobre seus caminhos e descaminhos, a fim de corrigirem e superarem suas debilidades e erros e tornarem suas ações e modos de agir coerentes com seus discursos e suas intenções. Esperamos que dele os movimentos populares possam extrair idéias e aprendizados que revigorem sua força e sua capacidade de influírem no curso da história.
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