TI verde: créditos de carbono são mito ou solução?
Apresentados a empresas, governos e sociedade como uma solução para a crise do clima, créditos de carbono recebem críticas
No dia 12 de outubro de 2007, Al Gore e os cientistas do Painel Internacional de Mudanças Climáticas (IPCC), da Onu, receberam o Prêmio Nobel da Paz pelos “esforços em prol da contenção das mudanças climáticas”. Gore tornou-se uma espécie de paladino do meio-ambiente e do clima depois do lançamento do documentário Uma Verdade Inconveniente, de 2006. No filme, Al Gore relaciona as catástrofes climáticas, como o furacão Katrina, como resultados do efeito estufa e pinta um futuro trágico para os habitantes do planeta Terra. “Mas nem tudo está perdido”, anuncia, já nos minutos finais.
Ele, então, elenca iniciativas que podem ser tomadas por pessoas, governos e empresas para, juntos, combaterem as mudanças climáticas. Entre as medidas, Gore enfatiza bastante a aquisição de créditos de carbono como algo que pode mudar o destino da humanidade. A partir daí, companhias do mundo todo iniciaram uma corrida para se tornarem “neutras em carbono”. Dell e Google são empresas que já anunciaram que têm como intenção ser “carbono neutro” até o fim de 2008.
Os créditos de carbono foram criados a partir do Protocolo de Quioto, o acordo das Nações Unidas que exige que 38 países, considerados os mais industrializados do mundo, reduzam a emissão de gases que causam o efeito estufa como o dióxido de carbono, o metano e o óxido nitroso em 5,8% em relação aos níveis de 1990. Pela proposta, a redução das emissões deve acontecer entre 2008 e 2012 e pode ocorrer com a diminuição do consumo de energia (combustível fóssil, energia elétrica, e outros) ou com a compensação das emissões por meio de plantio de árvores que vão absorver o carbono excedente.
Os projetos de redução de emissão de gases precisam ser aprovados pelo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, criado pelo Protocolo de Quioto. A partir daí, os créditos são emitidos e podem ser negociados em bolsas de mercadorias. Os países que não conseguirem atingir as metas podem comprar créditos de carbono de países emergentes ou em desenvolvimento, que não têm metas a cumprir. E os que não tiverem tempo ou disposição para se engajar em projetos, podem pagar companhias como a Climate Care e a Carbon Neutral Company para fazer isso por elas.
Parece tudo bastante simples e que o planeta está, finalmente, a salvo. Mas alguns críticos desse processo afirmam que os créditos de carbono são apenas mais um mecanismo de compra e venda de ativos cujos reais resultados não podem ser comprovados.
Outra crítica é que o problema da crise climática estaria justamente no tempo – ou na falta dele – para reverter a situação atual. No entanto, não há explicações sobre quanto tempo as emissões de hoje serão neutralizadas. Por exemplo, se uma pessoa viaja de São Paulo ao Rio de Janeiro de avião, o ideal é que as emissões deste vôo fossem neutralizadas no momento em que a pessoa chegasse ao destino. Mas não está claro – em que momento estas emissões começam a ser neutralizadas.
Um terceiro ponto é que, no caso desses processos de neutralização, zero nem sempre é zero. Ou seja, uma empresa que adota o discurso “carbono zero”, na verdade está considerando apenas uma parte do seu processo produtivo. Raramente se colocam na conta os litros de gasolina que os utilitários esportivos dos executivos gastam para levá-los de reunião em reunião, por exemplo.
Kevin Smith, um dos críticos mais radicais dos esquemas de neutralização de emissões, classifica os créditos de carbono como as indulgências da era moderna, algo que se compra para expurgar os pecados. Um desses críticos ferrenhos da comercialização de créditos de carbono é Kevin Smith, especialista em justiça ambiental do Transnational Institute, uma organização apartidária que visa a oferecer análises e pesquisas sobre temas como conflitos regionais, problemas sociais e ambientais.
Em um relatório chamado “The Carbon Neutral Myth: Offset Indulgences for Your Climate Sins” (O Mito do Carbono Neutro: Indulgências em offsets para seus pecados climáticos), ele defende que reverter o efeito estufa e a conseqüente crise climática demanda mudanças no estilo de vida das sociedades industrializadas, mas os créditos de carbono permitem que os níveis de consumo continuem aumentando e, como conseqüência, os níveis de gases nocivos no ar.
O autor compara as transações de créditos de carbono com a comercialização de indulgências na Idade Média, quando a Igreja Católica recebia dinheiro para expurgar pecados dos fiéis para financiar sua estrutura. Smith critica especificamente os mecanismos de créditos de carbono via a plantação de árvores.
Ele calcula que, apenas para neutralizar as emissões de carbono do Reino Unido, seria necessário plantar árvores em uma área de 10 mil quilômetros quadrados todos os anos – território comparável à metade do Estado do Sergipe que precisaria ser gerenciada indefinidamente. (Apenas como curiosidade, 10 mil quilômetros quadrados também é a área devastada na Amazônia todos os anos.)
Além destas questões, uma reportagem do jornal britânico The Guardian, de 7 de outubro de 2006, relatou que empresas inescrupulosas estavam se aproveitando da boa-fé pública nos créditos de carbono para lucrar em um mercado ainda não regulado, mas que já movimenta bilhões de dólares no mundo todo. A reportagem diz que algumas empresas vendem a mesma “fonte” de neutralização a quatro ou cinco clientes diferentes.
A Dell, empresa que se comprometeu a se tornar “carbono zero” em 2008, garante que as credenciais de suas fornecedoras de carbono são as melhores. “Nos certificamos sempre de que as companhias não tenham trabalho infantil e realizem um manejo consciente do solo”, afirma Gleverton de Munno, gerente de assuntos corporativos da empresa no Brasil.
Impulsionadas pelo desejo de salvar o planeta ou de fazer bonito junto a seus clientes, empresas do mundo todo e de todos os setores, têm anunciado maciçamente iniciativas para “neutralizar” suas emissões de carbono. Mas talvez tivessem também que pensar em reformar seu modelo de trabalho, suas práticas e sua cultura. Além de observar com mais critério o mercado de venda de créditos de carbono – em tempos de Sarbannes-Oxley, a transparência deve ser o critério número um na adoção de novas práticas.
Esta é a terceira reportagem do especial sobre TI verde.
Más material de TNI
- Estado del poder corporativo 2012 Enero 2012
- La crisis de la UE: guía de bolsillo Noviembre 2011
- TNI recuerda el 35º aniversario del asesinato de Orlando Letelier Septiembre 2011
- Por una política europea de inversiones al servicio del interés público Agosto 2010
- El TNI y el caso Pinochet Septiembre 2009
Suscribirse
Agenda
-
Tratado de Libre Comercio con Colombia
Mayo 2012
Amsterdam, Países Bajos






![image[node-id]](http://www.tni.org/es/sites/www.tni.org/files/imagecache/4teaser-small/reports-images/portada_acaparamiento_de_tierras_al_y_caribe.jpg)
![image[node-id]](http://www.tni.org/es/sites/www.tni.org/files/imagecache/4teaser-small/reports-images/green-economy_es_page_01.jpg)