Venezuela, Bolívia, Equador: quem tem medo da democracia?

10 Diciembre 2007
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O "demos" de hoje são os explorados e os excluídos, homens, mulheres e jovens que vivem do seu trabalho e não de rendas do capital. Quem tem medo de incluí-los no conceito moderno de Democracia, o Poder Popular?

“O Brasil está prestes a ser chamado para mediar mais uma crise política desencadeada pela tentativa do protoditador venezuelano Hugo Chávez de predominar nas relações internacionais.” (Merval Pereira, O Globo, 28.11.07).

Protoditador? Este é o linguajar das elites globais, que não toleram a possibilidade de um país incluir na sua Constituição Nacional o demonizado termo Poder Popular. Mas, traduzamos este nome para o grego clássico, e teremos a palavra tão familiar quanto desvirtuada: DEMOCRACIA! À diferença da Venezuela, Bolívia e Equador de hoje, a Grécia antiga considerava “demos” apenas os homens não trabalhadores, deixando de fora as mulheres e a classe escrava. O “demos” de hoje são os explorados e os excluídos, homens, mulheres e jovens que vivem do seu trabalho e não de rendas do capital. Quem tem medo de incluí-los no conceito moderno de Democracia?

O mesmo Merval diz, mais adiante, “Para defender a ex-Guiana Inglesa contra os impulsos expansionistas bolivarianos, os americanos negociam, agora, instalar uma base no Suriname, como já estão na Colômbia e no Paraguai, o que, na análise de experientes e desconfiados diplomatas brasileiros, constituiria também uma forma de cercar o Brasil.” Abro meu mapa da América Latina e Caribe, e vejo que esta seria a 14ª base militar estadunidense no nosso continente!

Onde está a indignação de Merval contra este expansionismo militarista dos Estados Unidos? Onde é que, no seu artigo, ele fala do macroditador global George W. Bush e da macroditadura econômica das grandes corporações globais? Onde é que ele expressa a urgência de as nações latino-americanas se unirem para proteger a soberania sobre seu território das forças imperiais dos Estados Unidos, e suas riquezas naturais da fome infinita das corporações transnacionais? Como bom porta-voz das elites brasileiras globalizadas, Merval se cala. Ele é prolífico contra Chávez e Evo Morales, como o será em breve, provavelmente, contra Rafael Correa, porque estes três presidentes estão fazendo, na sua prática política de estadistas, a opção preferencial pelos pobres e oprimidos dos seus países. Esta opção inclui transformações políticas, econômicas sociais e jurídicas que dão ênfase aos interesses das classes oprimidas à custa dos interesses das classes privilegiadas.

No Brasil, o governo Lula optou por agir em sintonia com as elites brasileiras e estrangeiras. Hoje a imprensa divulgou a indignação de Lula contra Dom Luiz Cappio, que iniciou há três dias uma greve de fome contra os estragos sócio-ambientais gerados pela transposição do Rio São Francisco. “Como ousa o bispo politizar uma iniciativa que tem natureza ´técnica´!”. Lula tem sido bom aluno dos mais cínicos privilegiados. Mas o maior serviço que lhes tem prestado é dar ao público a imagem de que, com um operário-presidente, já não há luta de classes no Brasil. A conseqüência é que os interesses que hoje são predominantes passam a ser legitimamente identificados com os interesses da maioria empobrecida, e da Nação como um todo. Mais uma cínica mentira que a grande mídia martela diariamente, com diferentes linguajares, nos ouvidos e olhos do grande público.

Que significa a entrega a empresas privadas estrangeiras de blocos petrolíferos descobertos, pesquisados e viabilizados pela Petrobrás, e do petróleo que elas extraírem, como foi feito em 28.11.07 na espúria nona licitação da Agência Nacional de Petróleo? Isto num momento em que aquelas nações sul-americanas fazem uma histórica inflexão no sentido de definir como suas as riquezas em petróleo e gás dos seus territórios, e firmam acordos com as transnacionais para que elas continuem operando apenas como prestadoras de serviços, sendo pagas em dinheiro ou em petróleo! Isto num momento em que as petro-afaimadas economias ricas economizam suas próprias reservas importando todo o petróleo e gás que podem da subordinada “periferia” do sistema da capital mundial! Isto num momento em que o preço do petróleo dá sinais de apenas começar sua subida ‘definitiva’. Que lógica justifica vendermos nosso petróleo, ainda escasso para nossas necessidades atuais e potenciais, por 80-100 dólares o barril, para amanhã sermos obrigados a comprá-lo por 300 dólares o barril?

A Associação de Engenheiros da Petrobrás, o Sindipetro, o Movimento em Defesa da Economia, os mais de 3,5 milhões que votaram pela renacionalização da Vale do Rio Doce, e outros milhões de sem-voz, estamos indignados contra o entreguismo do governo Lula. Amplos setores da sociedade brasileira estão gritando O Petróleo é Nosso! O Minério é Nosso! Que espera o governo para dar-lhes ouvidos? Que façam ações de relevo, como tem feito o MST, para que sua voz seja afinal levada em conta? Mas, mesmo legítimas e cidadãs, as ações do MST têm sido tratadas pela grande imprensa como crimes!

“Sob um governo que aprisiona gente injustamente, o lugar do homem justo é também na prisão”, são palavras de Henry David Thoreau, pioneiro da desobediência civil nos Estados Unidos da primeira metade do século 19 e inspirador de Gandhi. Seria o caso de a maior parte da população brasileira voluntariar-se para o cárcere! Em compensação, isto não precisa acontecer na Venezuela, onde Hugo Chávez, maciçamente legitimado por seis consultas públicas e às vésperas da sétima, propõe que a autêntica democracia - o poder popular – se torne o eixo central do sistema político do país!1 Nem na Bolívia, onde a dívida histórica, social e ecológica da qual são credores principais os povos autóctones, que são a maioria da população, começam a ser contempladas pelo governo Evo Morales! Sim, aquela maioria oprimida por cinco séculos de violência colonial e pós-colonial, e por mais cem anos de corporatocracia (travestida de democracia), sangrada contínua e violentamente das suas riquezas e dos seus direitos começa a ocupar um papel protagônico na Bolívia. Quem na Bolívia tem medo da autêntica democracia?

No Equador, o governo Correa, legitimado pela vitória eleitoral para a Assembléia Constituinte, empreende a retomada do petróleo equatoriano para o Equador, e aumenta a remuneração da Nação pelos excedentes da exploração petroleira de 50% (já havia sido meros 5% nos anos 70) para 99% em benefício da Nação, ficando as corporações transnacionais com apenas 1% (para além da remuneração pelo serviço de extração do petróleo que prestam ao Equador). É também no Equador que o governo teve a coragem de iniciar a auditoria integral da dívida equatoriana – incluindo não apenas a questão da legitimidade e da legalidade da dívida financeira, mas também as dívidas histórica, social e ecológica, das quais as credoras são a Nação e a massa empobrecida da população.

Ainda mais chocante nas reportagens da grande mídia é a parcialidade da informação que divulgam, violando seu compromisso sagrado com a verdade. “...a política de armamento da Venezuela acende a luz de alerta em setores militares brasileiros...” (ainda Merval no seu artigo de 28.11.07).

Quando foi que o colunista, ou a Rede Globo, levantou alguma luz amarela ou vermelha a respeito da presença das Forças Armadas dos Estados Unidos na nossa fronteira com o Paraguai e a Argentina, ou no tempo em que, por obra e graça do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, as F.A. dos EUA ocuparam hermeticamente a Base de Alcântara, no Maranhão, ao ponto de nem mesmo a Alfândega brasileira poder inspecionar os conteiners que chegavam dos EUA? Se o Exército Brasileiro, liderado hoje pelo Presidente Lula, decidisse fazer exercícios conjuntos com o Exército da Venezuela, que diriam as elites brasileiras e estadunidenses? Mas já existe um histórico de inúmeros exercícios conjuntos do Exército brasileiro com o dos EUA, que nunca mereceram um alerta da grande mídia para a ameaça que representam para a soberania do Brasil!

Uma Nação existe quando há um espírito unificado, quando cada um e todos os indivíduos – o que chamo de indivíduo social – são educados para exercerem o papel de sujeitos da cidadania e do poder econômico e político. Se existe alguém “proto” no nosso continente hoje, este alguém é a proto-Nação brasileira. Lula, “... fez a coesão política entre pobre e ricos. Mas não criou as condições para a unidade social, para a formação de uma Nação. Em vez de mudar a sociedade, tomou medidas que acomodaram o povo e os partidos. Adotou uma forma de fazer política idêntica à que antes criticava.” (Senador Cristovam Buarque, O Globo, 24.11.07). Este fato é bom para as elites. Eis que os bancos batem seus próprios recordes de lucros ano após ano; eis que as corporações estrangeiras ocupam sempre maiores áreas do território, fatias dos nossos mercados, e espaços nos nossos estômagos e corações. Por isso, os porta-vozes das elites se calam sobre esses fatos. Por isso as elites continuam tendo êxito em fazer passar os seus estreitos interesses individuais ou corporativos como se fossem interesses do Brasil!

Cancelo minha assinatura da Folha de São Paulo, como cancelei a de O Globo e do Jornal do Brasil, e passo a ouvir diariamente o Programa Faixa Livre2, a ler semanalmente o jornal Brasil de Fato, e mensalmente a revista Caros Amigos.

Notas

1 Quem na grande imprensa teve a coragem de mostrar que vários países ricos, a começar pela França, não têm limites para a reeleição dos seus presidentes?

2 Rádio Bandeirantes AM 1360, toda manhã de 8h às 10h, em todo o estado do Rio de Janeiro.


Marcos Arruda /Economista e educador do PACS, participa da coordenação da Rede Jubileu Brasil e é sócio do Instituto Transnacional. [LINK01]