O ditado de Nasser, «Nenhuma voz se eleva acima do som da batalha», regressa com brutal clareza na era do genocídio israelita em Gaza. Este ensaio aborda o slogan não como nostalgia, mas como um diagnóstico político contestado: numa região estruturada pela violência do colonialismo de povoamento e pelo poder imperial exercido por intermédio de forças por procuração, os projectos de democracia, desenvolvimento e justiça social são repetidamente forçados a confrontar a questão ainda não resolvida da libertação. Ao traçar os debates na esquerda árabe desde a descolonização até Camp David e ao presente, sustenta-se que tratar os «direitos» e a «reforma» como separáveis da Palestina constitui um erro de reconhecimento da contradição principal — aquela que continua a organizar a repressão, o subdesenvolvimento e a derrota em toda a região.
Illustration by Fourate Chahal El Rekaby
Ó Deus…
Não me faças mais amar as pessoas de bem.
Ó Deus…
Não me faças mais adorar o riso dos meus irmãos.
Ó Deus…
Faz-me odiar a minha pátria.
“Que Deus te recompense, tio Abdel Nasser”, poema de Abdelrahman Al-Abnoudi1
Quem nos enredou deve nos salvar.
“Gana El Hawa”, canção de Abdel Halim Hafez2
Nenhuma voz se eleva acima do ruído da batalha
Slogan cunhado pelo falecido presidente egípcio Gamal Abdel Nasser
Illustration by Fourate Chahal El Rekaby
Não há salvação individual
Qualquer análise séria do Oriente Médio contemporâneo deve considerar a formação do posto avançado colonial militarizado que é Israel como intrinsecamente ligada ao desenvolvimento da região ao longo dos séculos XX e XXI. A rejeição inicial de Israel pelos Estados árabes baseava-se no reconhecimento de que a existência dessa colônia bloquearia projetos coletivos de desenvolvimento político, social e econômico, impediria a emergência de Estados árabes fortes e auxiliaria os Estados Unidos e a Europa a proteger seu acesso ao Canal de Suez e às rotas em direção ao Iraque e à Índia.
Israel serviu para desacelerar, interromper e finalmente reverter o projeto árabe de modernização baseado na soberania pós-colonial. Funcionou como um verdadeiro “baluarte contra a barbárie árabe”, como defendia Theodor Herzl. Também visava — ainda que secundariamente — combater e substituir as correntes judaicas comunistas radicais existentes na região, como afirmou Winston Churchill em seu ensaio de 1920, “Zionism Versus Bolshevism: A Struggle for the Soul of the Jewish People”.
Nesse contexto, o intelectual palestino Munir Shafiq destacou a dimensão árabe da luta palestina:
“A experiência britânica com Muhammad Ali, o Grande, no Egito (1805–1840), levou à conclusão de que o estabelecimento de uma entidade ligada ao projeto colonial na Palestina era uma necessidade crucial para impedir que o Egito unificasse os árabes ou se transformasse em um Estado poderoso e competitivo, como Muhammad Ali havia conseguido — tornando o exército egípcio o quinto maior do mundo à época. A entidade sionista foi implantada na Palestina não porque a Palestina fosse um fim em si mesma, mas como meio para conter o Egito e impedir a unificação do Magrebe e do Mashreq árabes.”7
Examinemos agora a afirmação de que, mesmo independentemente da questão palestina, a presença de Israel na fronteira egípcia desempenhou um papel central no (sub)desenvolvimento do Egito. Como um dos países mais antigos da região em termos de projeto de modernização e construção institucional — e representando cerca de 35 a 40% da população árabe — o Egito estava historicamente destinado a tornar-se uma potência regional de primeira grandeza. Nas décadas de 1950 e 1960, sob Nasser, houve uma tentativa séria nesse sentido, com o apoio e a aprovação da maioria da população árabe8.
Após 1948 — e mesmo antes da chegada de Nasser ao poder — a imprensa e a opinião pública árabes, particularmente na Síria, a outra grande potência regional, acompanhavam atentamente os acontecimentos no Egito, sobretudo o confronto com a Grã-Bretanha. Em outubro de 1951, por exemplo, ao comentar a revogação do tratado anglo-egípcio, o jornal Al-Ba‘ath escreveu que “o povo árabe se reúne em torno do Egito”.
No entanto, diversos fatores limitaram essas ambições. As expectativas dos povos e dos Estados árabes não correspondiam às capacidades reais do Egito — uma jovem república recém-descolonizada que buscava seu lugar em um mundo em rápida transformação, ao mesmo tempo em que tentava se desvincular economicamente do Ocidente. Os esforços do Egito para liderar o projeto pan-árabe impuseram um peso considerável à sua economia, especialmente porque o país estava envolvido em vários conflitos armados, incluindo a guerra no Iêmen contra a Arábia Saudita e a Grã-Bretanha, ao mesmo tempo em que apoiava outros projetos de libertação árabe, como o da Argélia.
Paralelamente, o Egito buscava alcançar soberania econômica e, portanto, recusava-se a tornar-se dependente do bloco ocidental. Durante esse período, contou com o apoio da União Soviética às lutas de libertação no mundo árabe e na África, além de sua proximidade com o Movimento dos Não-Alinhados. No entanto, esse apoio jamais se equiparou ao suporte concedido pela Grã-Bretanha — e posteriormente pelos Estados Unidos — a Israel.
Mesmo antes da Conferência de Bandung, em 1955, quando o Egito ainda mantinha relações relativamente cordiais com os Estados Unidos, o principal ponto de atrito entre o regime de Nasser e Washington já era a posição norte-americana em relação a Israel. Após Bandung — conferência fundadora do terceiro-mundismo e do não-alinhamento — as tensões se intensificaram quando Nasser aderiu formalmente ao campo dos Não-Alinhados e se afastou do bloco ocidental, considerando essa orientação o caminho mais adequado para o Egito traçar seu percurso regional e internacional. Foi a partir desse momento que os Estados Unidos passaram a oferecer apoio total e explícito à nova colônia israelense.
Apesar disso, o Egito conseguiu manobrar de forma relativamente eficaz em um mundo multipolar a seu favor: nacionalizou o Canal de Suez em 1956 e avançou em projetos ainda mais ambiciosos, como a criação da República Árabe Unida (RAU) com a Síria em 1958. A fundação da RAU representou um terremoto geoestratégico. A Síria — um dos Estados politicamente mais sólidos da região, que anteriormente havia considerado a criação de uma Grande Síria e a unificação do Levante — renunciou voluntariamente à sua existência política independente em favor de outra entidade regional, em nome da unidade árabe, com amplo apoio popular em ambos os países e em todo o mundo árabe.
Esse acontecimento permanece sem paralelo na história das relações internacionais e evidenciou a seriedade do ethos pan-árabe, ameaçando desencadear um efeito dominó em toda a região. Países como o Iêmen e o Iraque estavam prestes a aderir à RAU, o que teria representado um golpe severo para as potências imperialistas e para os regimes árabes reacionários, como a Jordânia hachemita e a Arábia Saudita.
A RAU durou apenas três anos, devido a uma série de fatores internos. Ainda assim, a busca por independência e soberania continuou. Em razão do confronto com Israel, o Egito foi gradualmente empurrado para mais perto do campo soviético, a fim de compensar o apoio crescente que Israel recebia dos Estados Unidos. Contudo, como já observado, a ajuda soviética ao Egito nunca foi comparável à fornecida por Washington a Israel — especialmente depois que Israel demonstrou sua capacidade de travar as guerras da Guerra Fria em nome dos Estados Unidos.
Em 1967, ao derrotar os exércitos árabes, Israel não conquistou apenas uma vitória militar: destruiu também os projetos pan-árabes e socialistas da região, que passaram a ser associados, para muitos árabes, à derrota. Após essa vitória, Israel tornou-se oficialmente um posto avançado imperialista, um cão de guarda e um proxy dos Estados Unidos. Como tal, passou a receber um fluxo praticamente ilimitado de armamentos norte-americanos: enquanto na década de 1960 havia recebido 834,8 milhões de dólares em ajuda dos EUA (dos quais cerca de 30% eram ajuda militar), na década de 1970 esse valor chegou a 16,3 bilhões de dólares, dos quais aproximadamente 70% correspondiam a ajuda militar.9
A transformação de Israel em proxy foi acompanhada pelo fortalecimento das forças reacionárias na região, encarnadas sobretudo pelos regimes petrolíferos — Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Catar. Desde sua fundação, esses regimes estiveram intimamente ligados aos interesses imperialistas e capitalistas, constituindo a oposição natural aos projetos árabes socialistas e progressistas. Ainda assim, participaram — e se beneficiaram — do que viria a ser a última grande demonstração de unidade árabe: o embargo do petróleo durante a guerra de outubro de 1973.
Assim como o confronto com Israel levou o Egito a se aproximar da União Soviética, esse mesmo confronto — por meio de diversas formas de pressão — acabou empurrando o Egito para um alinhamento total com os Estados Unidos em 1978. Esse deslocamento marcou o fim oficial da era da República de Julho de Nasser e a entrada em um período radicalmente distinto — período no qual ainda vivemos hoje. A realidade política atual do Egito não pode, portanto, ser compreendida sem analisar o impacto de Israel sobre sua trajetória enquanto república moderna na segunda metade do século XX.
Em primeiro lugar, a fundação violenta de Israel e a derrota dos exércitos árabes em 1948, acompanhadas pela perda da Palestina, fizeram do exército um dos principais — senão o principal — ator político no Egito. Extraindo sua legitimidade da ameaça existencial à fronteira oriental do país, o exército egípcio tornou-se um pilar central do Estado. Essa militarização teve consequências diretas para a vida política e para as liberdades. Como observado anteriormente, o princípio de que “nenhuma voz se eleva acima do ruído da batalha” significava que a causa nacional se sobrepunha às causas sociais e políticas. Essa lógica foi continuamente reforçada pelas grandes guerras travadas contra Israel ao longo de três décadas: a agressão tripartite de 1956, a Naksa de 1967, a guerra de desgaste (1967–1970) e a guerra de outubro de 1973. Esses conflitos consolidaram a legitimidade do exército e serviram como justificativa permanente para seu fortalecimento.
Em segundo lugar, a presença de Israel favoreceu a ascensão dos movimentos islamistas políticos, bem como a disseminação do sectarismo e do sentimento antiesquerdista no Egito e no mundo árabe como um todo. Após a derrota humilhante e estruturante de 1967, o xeque egípcio Muhammad Metwalli Al-Sha‘rawi prostrou-se publicamente para agradecer a Deus por não ter concedido a vitória ao Egito, afirmando que tal vitória teria sido atribuída ao socialismo laico, e não ao islã político.10
Essa derrota foi seguida pela estratégia de Anwar el-Sadat, que buscou enfraquecer a esquerda e os nasseristas, fortalecendo os movimentos islamistas — em particular a Irmandade Muçulmana — e incentivando a migração da força de trabalho egípcia para os países do Golfo, o que posteriormente facilitou a difusão da ideologia wahhabita extremista no Egito.11
Além disso, o deslocamento de Israel para a direita religiosa extremista também empurrou setores da sociedade egípcia em direção ao islamismo político, que passou a sustentar que a dignidade só poderia ser restaurada por meio de um retorno à tradição religiosa. Diversos estudos fundamentais desenvolvem esse argumento.
Em Islam Without Fear: Egypt and the New Islamists, Raymond William Baker argumenta que a ascensão do Likud e o enraizamento da ideologia nacionalista religiosa dos colonos em Israel reforçaram a narrativa islamista segundo a qual os Estados laicos seriam incapazes de defender a dignidade árabe.
Por sua vez, em The Far Enemy: Why Jihad Went Global, Fawaz Gerges demonstra que a consolidação da direita religiosa israelense, especialmente após 1977, moldou o discurso islamista no Egito, enquadrando a luta árabe-israelense como existencial e religiosa, o que facilitou o recrutamento tanto da Irmandade Muçulmana quanto de suas correntes mais militantes.
É importante destacar que, nesse contexto de ascensão do sectarismo religioso, a presença de Israel também contribuiu para a criação de uma oposição binária entre árabes e judeus, apesar de os judeus árabes terem vivido na região durante séculos — e de terem desempenhado um papel central na fundação dos partidos comunistas árabes no início do século XX. Na realidade, o Mossad israelense trabalhou ativamente para aprofundar essa fratura sectária e incentivar a emigração dos judeus árabes para fora da região por meio de campanhas de medo, incluindo atentados contra sinagogas, como documentou o historiador
No Líbano, o massacre de Sabra e Chatila, em 1982, constitui um exemplo aterrador de como Israel fomentou e instrumentalizou o sectarismo — ele próprio artificialmente produzido pela divisão colonial da região em benefício do imperialismo britânico e francês por meio dos acordos Sykes-Picot de 1916.
Um terceiro efeito da presença de Israel na história moderna do Egito reside na profunda dissonância criada pelo fato de que o Egito — que possui o maior exército e a maior população do mundo árabe — não foi capaz, mesmo com o apoio de outros países árabes, de obter uma vitória decisiva ou uma solução definitiva para o chamado “problema israelense”, apesar das evidentes disparidades de tamanho, história e cultura. Essa situação gerou um sentimento persistente de derrota e confusão na sociedade egípcia, sentimento esse agravado pela duração do conflito e pela continuidade da agressão israelense.
Essa derrota material e física prolongada teve efeitos profundos sobre a subjetividade política árabe, afetando todos os campos políticos e a capacidade dos indivíduos de se perceberem como sujeitos da história. No plano interno egípcio, isso se manifesta de forma particularmente intensa. A ausência de uma resolução decisiva alimenta uma necessidade permanente de explicar por que nenhuma solução foi alcançada e por que o Egito parece estagnado enquanto Israel avança. Esse contexto favoreceu a proliferação de teorias conspiratórias e explicações paranoicas, que vão desde a ideia de traições internas e “quintas colunas” — mobilizando argumentos culturais ou civilizacionais — até narrativas conspiratórias de caráter sobrenatural ou histórico.
O mesmo raciocínio produziu também um segmento da sociedade que internaliza e racionaliza a propaganda ocidental segundo a qual Israel prospera porque encarna e promove os valores do Ocidente. Nessa leitura, o sionismo ultrapassa o âmbito de uma ideologia colonial de povoamento e passa a ser apresentado pelas potências ocidentais como um “modo de vida”.
A conhecida máxima segundo a qual “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo” pode ser aplicada à existência de Israel: tornou-se impossível imaginar a região Magrebe-Mashreq sem a presença de Israel, apesar da brevidade relativa de sua história. A questão passa então a ser como lidar com esses “fatos consumados”. Nesse quadro, em vez de buscar soberania real, os países da região passaram a competir entre si por posições mais favoráveis no ranking de benevolência dos Estados Unidos.
Isso ficou evidente recentemente quando apoiadores do Estado egípcio comemoraram o fato de o Egito — e não o Catar — sediar negociações de cessar-fogo e a chamada “conferência de paz” sobre o genocídio em Gaza, na presença de Donald Trump. Na ausência de soluções — ou mesmo de vontade política para buscá-las — o horizonte de ambição passou a se limitar à gestão de uma era de dominação norte-americana e israelense sobre a região.
Diante do enorme hiato entre o potencial do Egito, sua história e sua realidade atual — e considerando que o nacionalismo pós-colonial egípcio se forjou em oposição a Israel — não é exagero afirmar que a ausência de uma solução eficaz para a questão israelense produziu uma crise generalizada de confiança no Egito, afetando todos os aspectos da vida. Como escreveu o pensador marxista egípcio Mohamed Naeem:
“É como se a existência de Israel nas fronteiras do Egito fosse a prova da nossa indignidade enquanto Estado e enquanto povo.”
Ele acrescenta:
“O problema é a existência de Israel, e não apenas as destruições que ela provocou na região.”
A percepção perturbadora é que o destino do povo egípcio — e da região como um todo — não é apenas compartilhado, mas está intrinsecamente ligado ao destino de Israel.
As massas egípcias têm plena consciência da dissonância entre o potencial, a cultura e a história do Egito, por um lado, e o discurso grandiloquente do Estado, por outro, diante da realidade atual e da incapacidade persistente de agir de forma decisiva para resolver o dilema israelense. Desde o “tratado de paz” com Israel, formalizado nos Acordos de Camp David de 1978, e da normalização estatal que se seguiu, tornou-se necessária uma repressão crescente para impor uma versão distorcida do Estado.
Essa versão distorcida foi temporariamente interrompida entre 2011 e 2013, durante a revolução egípcia, antes de ser restaurada pela submissão forçada da maioria da população a um dos regimes mais repressivos da história moderna do país. Práticas cotidianas de disciplina, punição e empobrecimento foram impostas para manter as condições de derrota e impotência.
O recurso à repressão no Egito não é novo. Após os Acordos de Camp David, Sadat lançou uma ampla campanha repressiva, prendendo cerca de 1.600 intelectuais, dirigentes políticos e militantes, e mobilizando os mecanismos de controle do Estado: leis restritivas sobre reuniões e expressão, fortalecimento das redes de vigilância. Após o assassinato de Sadat, em 6 de outubro de 1981, durante o desfile comemorativo da guerra de outubro, o poder passou para o regime de Hosni Mubarak, que deu continuidade à trajetória iniciada por Sadat: aprofundamento da normalização com Israel, neoliberalização da economia e expansão maciça do aparato de segurança por meio de um estado de emergência permanente, da ampliação das detenções arbitrárias e do uso sistemático da tortura.
Essas dinâmicas conduziram ao levante de 2011, seguido pela contrarrevolução e pela restauração violenta do Estado herdado de Sadat, caracterizada por uma intensificação ainda maior da violência, da repressão e do empobrecimento.12
Ali Al-Kadri resume o processo descrito acima da seguinte forma:
“Ao cultivar um sentimento de inevitabilidade e impotência, a violência contribui para a manutenção da dominação capitalista. Sem a violência, as massas não estariam acorrentadas à lógica do capital; sua existência e sua reprodução dependem da contra-violência que exercem na resistência.”
Para responder à extrema impopularidade da colônia de povoamento israelense na região, as classes dominantes árabes — inclusive no Egito — foram transformadas em policiais encarregados de disciplinar suas populações. Em contrapartida, isso lhes permitiu consolidar seu próprio poder e seus interesses. As tendências à resistência e à libertação ameaçam diretamente esses interesses: o desmantelamento do Estado israelense implicaria uma reconfiguração completa da região, privando essas classes de seu poder e abrindo caminho para outras estruturas políticas.
Illustration by Fourate Chahal El Rekaby
Uma derrota não resolvida?
Muito se escreveu sobre as consequências históricas da derrota militar de 1967, a Naksa (“revés”). Essa derrota foi analisada em toda a região e além dela; impregnou o cinema, a literatura e até a música da época; e sua influência persiste até hoje, colocando continuamente à prova o sonho de grandeza e dignidade prometido por Nasser, mas jamais plenamente realizado. Para muitos, a história termina aí — com a morte de Nasser marcando o fim de ideais grandiosos porém inacabados: o pan-arabismo, o socialismo e o terceiro-mundismo. Nessa leitura, a derrota de 1967 teria anulado tudo o que Nasser havia realizado.
“Você nos decepcionou e se decepcionou a si mesmo… e então partiu, levando consigo as capacidades e as esperanças da nação… até aquele momento.”
Assim termina 1970: Os últimos dias, de Sonallah Ibrahim, elegia crítica e íntima dedicada ao homem que o havia prendido, mas cujo projeto ele apoiou de maneira crítica até o fim.
Esse relato, no entanto, omite o que ocorreu durante a década que separa a derrota de 1967 da visita tristemente célebre de Sadat ao Knesset dez anos depois. Para o exército egípcio, o cenário de 1967 foi catastrófico: a força aérea foi quase inteiramente destruída e o Sinai, a Cisjordânia, Gaza e o Golã foram ocupados. Ainda assim, a capitulação só ocorreria em 1978.
O comandante militar israelense e ex-ministro da Defesa Moshe Dayan declarou ter aguardado, imediatamente após 1967, um telefonema de Nasser ou dos árabes reconhecendo a derrota e solicitando um acordo. Esse telefonema nunca veio. Pelo contrário, após o discurso de renúncia de Nasser, milhares de egípcios saíram às ruas para rejeitar sua renúncia e exigir que permanecesse no poder. Alguns relatos descrevem esses manifestantes como manipulados; na realidade, tratava-se de uma escolha consciente da esmagadora maioria do povo egípcio, que — sabendo que o sucessor cogitado, Khaled Mohieddine, defendia o alinhamento com os Estados Unidos — expressava sua recusa à rendição.13
Por meio dessas manifestações, os egípcios conferiram a Nasser um mandato para prosseguir a luta contra Israel e afirmaram sua disposição de continuar a se sacrificar pela libertação. Nasser atendeu a esse chamado. Pouco depois, realizou-se a cúpula da Liga Árabe em Cartum, em agosto de 1967, na qual foram proclamados os famosos “três nãos”: não à paz com Israel, não ao reconhecimento de Israel, não às negociações com Israel.
A partir desse momento, o Estado egípcio e a sociedade como um todo mobilizaram-se para o esforço de guerra. O ícone da música egípcia e árabe, Umm Kulthum, empreendeu uma turnê nacional, regional e internacional; o ponto culminante foi seu concerto histórico de duas noites no Olympia de Paris, em novembro de 1967, em benefício do esforço de guerra. Ela doou integralmente seus cachês às forças armadas egípcias.14
O slogan de Nasser em seu último discurso antes da morte — “o que foi tomado pela força só pode ser recuperado pela força” — foi interiorizado pela sociedade egípcia como expressão do compromisso coletivo com a luta armada contra Israel.
Durante esse período, após uma profunda reestruturação, o exército egípcio iniciou a reconstrução de suas capacidades defensivas com o apoio da União Soviética. Posicionou-se ao longo do Canal de Suez e entrou em um confronto de três anos com Israel, conhecido como a guerra de desgaste. O objetivo dessas operações militares não era recuperar imediatamente os territórios árabes ocupados, mas reconstruir o exército egípcio, restaurar sua confiança no combate e desgastar as capacidades israelenses. Tratava-se também de enviar uma mensagem clara a Israel: não lhe seria permitido desfrutar impunemente dos ganhos de 1967.
A recém-criada Organização para a Libertação da Palestina (OLP) também participou da guerra de desgaste, especialmente na batalha de Karameh, na Jordânia, em 1968, que opôs o exército israelense aos fedayin palestinos. Embora Israel tenha destruído a base dos fedayin, sofreu perdas significativas. Um cessar-fogo entre Egito e Israel foi declarado em agosto de 1970, sem um vencedor claro. Isso, no entanto, era secundário: o Egito havia alcançado seu objetivo estratégico ao romper a sequência de vitórias militares fáceis de Israel, infligindo centenas — senão milhares — de baixas e destruindo entre 24 e 30 aviões israelenses.
As perdas egípcias foram, evidentemente, elevadas — dezenas de milhares de mortos, além da destruição de infraestruturas civis, como a escola primária de Bahr al-Baqar e a fábrica de Abu Zabal. Ainda assim, a guerra de desgaste permitiu ao exército e ao povo egípcios recuperar a confiança em sua capacidade de enfrentar Israel.15
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Entre dois Outubros
Foi esse exército, agora confiante, que surpreendeu Israel em 6 de outubro de 1973, ao atravessar a linha Bar-Lev, considerada intransponível pelo exército israelense. Ela foi superada em menos de duas horas pelas forças egípcias, comandadas pelo herói de guerra Saad el-Din el-Shazly. A Operação Badr marcou o início da Guerra de Outubro e representou a primeira vez em que um exército árabe infligiu uma derrota decisiva ao exército israelense no campo de batalha, quebrando o mito de sua invencibilidade.
No entanto, após essa ruptura inicial, surgiu um desacordo estratégico entre Shazly e outros altos oficiais militares, de um lado, e Anwar el-Sadat, de outro. Sadat impôs a ampliação da ofensiva, contra a recomendação de Shazly, que defendia a consolidação das posições já conquistadas. Essa decisão levou ao que ficou conhecido como “a brecha”: uma falha na linha egípcia entre o Segundo e o Terceiro Exércitos no Sinai, explorada pelas forças israelenses em meados de outubro de 1973. As tropas israelenses atravessaram então do lado leste para o lado oeste do Canal de Suez, penetrando profundamente as posições egípcias e cercando o Terceiro Exército.
Shazly e outros oficiais sustentaram posteriormente — em oposição à narrativa oficial do Estado egípcio — que o exército poderia ter alcançado ganhos territoriais muito mais amplos sem essa ordem de Sadat. Muitos também questionaram as motivações de Sadat, argumentando que ele buscava conquistas militares limitadas para utilizá-las como alavanca em negociações diplomáticas.16 Outros sustentam que, mesmo com um avanço maior, o exército egípcio não teria conseguido uma vitória decisiva que encerrasse definitivamente o conflito — mas ainda assim teria obtido um sucesso militar muito mais significativo do que aquele alcançado após a intervenção impopular de Sadat.
Como os arquivos egípcios permanecem inacessíveis ao público e aos pesquisadores, é quase impossível estabelecer um relato oficial completo da guerra de 1973. Os historiadores dependem de memórias e de fontes ocidentais e israelenses para reconstruir os acontecimentos. Shazly, amplamente considerado um herói no Egito e no mundo árabe, foi condenado a três anos de prisão — dos quais cumpriu um ano e meio — por divulgar segredos militares durante o regime de Hosni Mubarak, que havia sido piloto sob seu comando na guerra de outubro.
Os nasseristas atribuem a vitória militar de 1973 a Nasser, argumentando que foi a reconstrução do exército e do corpo de oficiais sob seu governo, a experiência adquirida na guerra de desgaste e sua recusa ao Plano Rogers — em particular o deslocamento do muro de mísseis (o sistema integrado de defesa aérea egípcio, construído antes e durante a guerra de desgaste e estendido durante a guerra para neutralizar a superioridade aérea israelense, um dos maiores feitos estratégicos do Egito) até a margem do Canal de Suez — que prepararam o exército para o confronto.
Outros atribuem a vitória ao próprio povo egípcio, enfatizando sua recusa em capitular após 1967 e sua disposição de suportar o peso de um estado de guerra permanente. É certo que, após 1967, o Estado passou a depender mais intensamente das massas para reconstruir o exército e sustentar o esforço de guerra. A consciência, a identidade nacional e o sentido de propósito de toda uma classe social foram moldados no confronto militar com Israel.
O povo havia pago o preço da derrota de 1967 de pelo menos três maneiras. Primeiro, sofreu uma derrota nacional devastadora diante de um inimigo desprezado, sem uma perspectiva clara de contra-ataque. Segundo, arcou com o peso econômico do esforço de guerra e das escassezes que o acompanharam. Terceiro, as classes que esperavam se beneficiar do ensino gratuito primário, secundário e universitário instituído sob Nasser viram-se lançadas em um serviço militar indefinido. Após 1967, portanto, a população exigia com urgência uma solução decisiva para a luta.
É por isso que, ao assumir a presidência em 1970 após a morte de Nasser, Sadat enfrentou enorme pressão popular para retomar a guerra e recuperar os territórios ocupados. Alguns historiadores chegam a afirmar que a pressão exercida pelo movimento estudantil — particularmente forte em 1972 — desempenhou um papel decisivo na decisão de lançar o ataque de outubro de 1973. As manifestações estudantis foram, em todo caso, suficientemente intensas para que Sadat recorresse à polícia, a milícias e a gás lacrimogêneo para reprimi-las.
Apesar desse apoio popular à guerra, Sadat havia tentado, antes de 1973, negociar um acordo por intermédio dos Estados Unidos. Suas iniciativas fracassaram: Israel não estava disposto a negociar a partir do que considerava uma posição de força17. O analista Hazem Kandil sustenta que foi precisamente essa recusa israelense em negociar que forçou Sadat a entrar em guerra. No entanto, os relatos dos generais Saad el-Din el-Shazly e Mohamed Abdel Ghany el-Gamasy indicam claramente que Sadat não buscava uma vitória militar total em 1973, mas pretendia utilizar a guerra como instrumento para forçar Israel à mesa de negociações.
O testemunho de Henry Kissinger sobre esse período — no qual afirma ter ficado surpreso com a maneira como Sadat desperdiçou os ganhos egípcios —, o tratamento posterior dispensado por Sadat à geração militar de 1973 (privada de poder e impedida de apresentar sua própria narrativa) e sua decisão de fortalecer o aparato policial para contrabalançar a popularidade do exército após a guerra demonstram claramente que, ao contrário do povo e das forças armadas, Sadat não via a guerra como um fim em si mesma. Ele buscava apenas uma incursão militar calculada a serviço de objetivos políticos.
A guerra de 1973 entrou assim para a história como uma vitória dilapidada por manobras políticas.18 O Estado egípcio, embora reivindicasse a guerra como vitória nacional e transformasse o 6 de outubro em feriado oficial, orientou-se rapidamente para outra solução da questão israelense: o acordo político. (Convém notar que a narrativa oficial do Estado apagou o papel desempenhado pelos egípcios comuns e pela resistência popular das cidades do Canal na contenção heroica do avanço israelense em direção ao Cairo.)
Entre a travessia do Canal de Suez pelo exército egípcio e a destruição da linha Bar-Lev em outubro de 1973, por um lado, e a ofensiva palestina de 7 de outubro de 2023 — com a destruição do “muro de ferro” de Gaza e da base militar israelense de Nahal Oz — cinquenta anos depois, por outro, muitos acontecimentos, recomposições e novas equações remodelaram a luta contra Israel. Ainda assim, a resistência de Gaza — apesar da normalização egípcia — escolheu deliberadamente o aniversário da travessia do Canal de Suez para lançar sua operação.
Essa escolha remete ao conceito palestino de tarkom (acumulação), segundo o qual Israel pode ser derrotado por uma sucessão de derrotas parciais, e não por uma única batalha decisiva. O 7 de outubro recordou ao exército israelense o primeiro momento em que o mito de sua invencibilidade foi quebrado — e o quebrou novamente. Esse paralelo reafirmou a dimensão árabe da luta palestina e evidenciou a semelhança entre a saída da maior prisão a céu aberto do mundo (Gaza) e a travessia do Canal de Suez pelos egípcios.19
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“Tenho medo de que, no dia da vitória, recuperemos o Sinai, mas percamos o Egito” - Ahmed Fouad Negm
يا خوفي من يوم نصر: ترجع سينا وتروح مصر - أحمد فؤاد نجم 1974
Ya Khofy min Youm Nasr: Terga’ Sinaa we Terooh Masr,
- Ahmed Fouad Negm.
A vitória de 1973 não teria sido possível sem a solidariedade árabe. Egito e Síria não lutaram sozinhos: os Estados árabes contribuíram para o esforço de guerra de diversas maneiras, ao menos por meio de apoio financeiro.20 Em particular, a implementação do embargo do petróleo de 1973 contra o Ocidente constituiu um momento decisivo, jamais reproduzido posteriormente.21
Na esteira desse episódio, Henry Kissinger elaborou uma nova estratégia para a região, cujo objetivo central era resolver a chamada “crise do Oriente Médio” isolando cada país árabe e tratando-o separadamente, em vez de abordar a questão em escala árabe coletiva.22
Quando algumas figuras da oposição buscam hoje a origem da repressão extrema sofrida pelos egípcios, por vezes a situam na revolução de julho de 1952, que levou os Oficiais Livres e Nasser ao poder, construindo assim uma narrativa teleológica que liga o exército egípcio dos anos 1950 e 1960 ao de hoje. O Estado reforça essa narrativa por meio de sua historiografia oficial, mobilizando historiadores alinhados, currículos escolares e programas televisivos.
Em contraste, narrativas alternativas sustentam que essa leitura é excessivamente simplista e afirmam que a República de Julho chegou ao fim com a assinatura dos Acordos de Camp David, em 1978, dando lugar à República de Camp David, que perdura até hoje (com uma breve interrupção entre 2011 e 2013). Essa interpretação difundiu-se amplamente nos últimos anos, em reação às escolhas do regime de Abdel Fattah al-Sisi durante o genocídio, que evidenciaram tanto a ausência de soberania do Egito quanto o custo de seu alinhamento com os Estados Unidos e as monarquias do Golfo.
Da mesma forma que esse período esclareceu a natureza real do Ocidente e de sua suposta “ordem internacional baseada em regras”, também revelou o papel dos regimes árabes compradores. Evidenciou o fosso crescente entre governantes e governados, bem como a extensão da repressão que esses Estados estão dispostos a infligir a seus próprios povos a serviço do imperialismo e de seus interesses de classe.
O slogan “Abaixo Camp David” continua a ser entoado nas ruas do Egito durante manifestações e permanece presente nas biografias e descrições de redes sociais de egípcios de diferentes orientações políticas. Esse slogan ultrapassa a simples crítica ao “tratado de paz”: expressa a rejeição à guinada política total que ele representou e à nova república que instituiu.
Ao longo dos últimos dois anos, diversos analistas apontaram supostas violações israelenses dos termos do tratado com o Egito, incluindo a ocupação do corredor de Filadélfia e a tomada do posto fronteiriço de Rafah. No entanto, quer Israel tenha ou não penetrado nas zonas desmilitarizadas previstas pelo acordo (zonas A, B ou C), isso é secundário: desde o início, os objetivos políticos globais do tratado prevaleceram sobre os detalhes de suas cláusulas.
O tratado refletia acima de tudo a vontade política do regime de Sadat de renunciar ao uso da força armada no conflito com Israel e de avançar rumo a um acordo político. Na ausência de vontade política para entrar em guerra, as sutilezas técnicas do acordo tornam-se irrelevantes — mesmo que Israel violasse integralmente seus termos. Isso talvez explique por que Sadat jamais contestou seriamente o tratado, declarando, segundo as memórias de Mohamed Ibrahim Kamel, então ministro das Relações Exteriores do Egito (que renunciou em protesto): “Assinarei tudo o que o presidente Carter propuser, sem sequer ler.”23
Como já indicado, Camp David foi muito mais do que um tratado: constituiu a pedra angular de um projeto político mais amplo, marcando o início da República de Camp David. Os acordos instituíram a normalização com o inimigo e abriram caminho para a política de infitah (abertura econômica) neoliberal de Sadat, rompendo com a economia planificada de Nasser.
Essa nova orientação traduziu-se no abandono das nacionalizações em favor das privatizações e na passagem de uma ambição de industrialização e produção nacional para uma economia de serviços voltada à importação. O período foi marcado pela intervenção do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, acompanhada de severas condicionalidades.
Costuma-se esquecer que o levante de janeiro de 1977 — a chamada “revolta do pão” — precedeu o de 2011. Milhares de egípcios foram às ruas para protestar contra o corte dos subsídios ao pão exigido pelo FMI. Sadat mobilizou o exército para reprimir os manifestantes, causando dezenas de mortes e centenas de feridos. As medidas acabaram sendo revertidas.
Foi nesse contexto, temendo que sua legitimidade estivesse seriamente abalada, que Sadat buscou acelerar as negociações de paz com Israel, em parte para garantir o apoio dos Estados Unidos à manutenção de seu poder. Esse processo culminou com sua visita surpresa ao Knesset, em novembro de 1977, que chocou profundamente a opinião pública egípcia e árabe.
O ponto mais significativo dos Acordos de Camp David foi o compromisso do Egito de romper seus vínculos com a União Soviética e ingressar no campo norte-americano — resultado que Henry Kissinger considerava o maior êxito dos acordos. A aceitação dessa condição pelo Egito resultou tanto de transformações globais quanto regionais, incluindo o enfraquecimento da União Soviética e sua incapacidade — ou falta de disposição — de oferecer ao Egito um apoio comparável ao concedido pelos Estados Unidos a Israel. (A exceção notável foi o sistema de defesa antimísseis que Nasser obteve dos soviéticos sob ameaça de renúncia, sistema que permitiu a reconstrução do exército durante a guerra de desgaste e desempenhou papel decisivo na guerra de outubro de 1973.)
É nesse contexto que uma fração significativa do aparato estatal e militar egípcio passou a buscar o afastamento do campo soviético.
No plano global, os Acordos de Camp David marcaram uma virada importante nas relações internacionais: o Egito foi um dos primeiros países — e o primeiro grande país — a transitar do campo soviético para o norte-americano em poucos anos. Nesse sentido, funcionou como um laboratório para políticas que mais tarde seriam aplicadas aos países comunistas da Europa Oriental.
A posição central do Egito no mundo árabe e sua liderança histórica no conflito árabe-israelense fizeram com que seu alinhamento com os Estados Unidos remodelasse completamente a equação regional, reduzindo drasticamente sua influência e suas capacidades — efeitos que se fazem sentir até hoje.
Camp David também representou a primeira tentativa de Kissinger de conduzir negociações diplomáticas com um Estado árabe isoladamente, em vez de tratar com o conjunto do mundo árabe. Ele começou pelo país que até então representava a maior ameaça — talvez existencial — a Israel. Uma vez neutralizado o Egito, abriu-se o caminho para que os Estados Unidos se tornassem a potência externa dominante na região.
Dessa forma, Camp David facilitou a dominação regional de Israel, enfraqueceu profundamente o campo árabe radical, fortaleceu as monarquias pró-americanas do Golfo e garantiu que a riqueza petrolífera árabe fosse estreitamente alinhada à estratégia norte-americana. Camp David conduziu diretamente aos Acordos de Oslo, que deram origem à Autoridade Palestina, encarregada de atuar como primeira linha de defesa de Israel contra a resistência palestina. Oslo, por sua vez, abriu caminho aos Acordos de Abraão e à normalização árabe-israelense que avançava de forma constante até ser interrompida pela resistência palestina em 7 de outubro.
Hoje está claro que os Estados árabes signatários desses sucessivos acordos de “paz” não obtiveram qualquer dividendo tangível em termos de paz ou prosperidade.
Illustration by Fourate Chahal El Rekaby
Crepúsculo da era Camp David
Com o distanciamento histórico, é possível afirmar que a aposta de Camp David fracassou de forma espetacular para o Egito, ao mesmo tempo em que constituiu uma das maiores vitórias estratégicas de Israel. A prosperidade econômica prometida por Sadat jamais se materializou: não houve nenhum “Japão árabe”. Tampouco se concretizou seu projeto de transformar o Egito no principal aliado regional dos Estados Unidos em substituição a Israel.
Nenhum benefício real resultou dessa “paz” imposta de cima: o único resultado concreto foi a normalização. O Egito — até então a principal ameaça existencial a Israel — foi neutralizado. A primeira ação de Israel após a assinatura dos acordos foi a invasão do Líbano em 1982, enviando uma mensagem clara ao mundo árabe e ao Egito em particular: o tratado seria respeitado de forma unilateral e, uma vez neutralizada a frente egípcia, Israel prosseguiria no esmagamento de qualquer resistência árabe até obter a rendição total de seus adversários.
A invasão do Líbano testou rapidamente o grau de adesão do Egito aos termos do tratado.
Após Camp David, o Egito perdeu progressivamente sua soberania, tornando-se economicamente dependente dos Estados Unidos e das monarquias do Golfo. Paralelamente, foi obrigado a fortalecer de maneira drástica sua capacidade policial para reprimir não apenas seus adversários políticos, mas também as classes populares, agora privadas de dignidade e de redes de proteção social.
Não surpreende, portanto, que as explicações mais recorrentes para o levante de janeiro de 2011 tenham assumido a forma de noções gerais como “corrupção”, “autoritarismo”, “liberdades individuais” e “democracia”. No entanto, narrativas que se limitam a esses fatores ignoram que o levante foi o resultado de um acúmulo de queixas. Seu impulso foi construído gradualmente: das greves operárias em Mahalla às manifestações de solidariedade às intifadas palestinas e de oposição à normalização contínua do Egito com Israel, passando pelos protestos contra a violência policial dirigida às classes populares.
Esses elementos convergiram em uma rejeição coletiva da República de Camp David e de tudo o que ela representava. Nesse contexto, durante os acontecimentos de 2011, os egípcios atacaram repetidamente a embaixada de Israel — invadindo o edifício e escalando seus muros para arrancar a bandeira israelense. Pelo menos três manifestantes egípcios foram mortos nessas ações.24
Os que atravessaram e os que pilharam
Após a revolução de 2011, a contrarrevolução — conduzida pelo regime atual com o apoio das monarquias do Golfo — conseguiu restaurar à força a República de Camp David por meio de uma repressão sem precedentes, ainda que com novas características. Esse processo aprofundou a relação do Egito com Israel e reforçou a normalização.
Em 2013, um golpe de Estado — apoiado por milhões de egípcios — permitiu ao exército derrubar o presidente da Irmandade Muçulmana, Mohamed Morsi (que, por sua vez, não havia rompido com a República de Camp David). Esse período foi marcado por uma série de massacres e repressões violentas comandadas pelo Estado, entre eles o massacre da dispersão do acampamento de Rabaa al-Adawiya.
Nesse episódio sangrento, a violência que o Estado já havia exercido contra diferentes segmentos da população — como a dispersão violenta do protesto copta de Maspero em outubro de 2011, o massacre de Port Said contra os ultras do clube Al-Ahly em fevereiro de 2012 e os confrontos recorrentes entre polícia e manifestantes na rua Mohamed Mahmoud, no Cairo — pareceu convergir para demonstrar até onde as forças de segurança estavam dispostas a ir para erradicar qualquer forma de dissidência.
Esses acontecimentos transformaram profundamente o papel do exército egípcio, redefinindo tanto sua autoimagem quanto sua concepção de legitimidade. Enquanto anteriormente o exército justificava seu tamanho e seu poder pela ameaça existencial representada por Israel na fronteira oriental e pela perspectiva de um novo conflito armado, passou agora a voltar-se para dentro. Sua legitimidade passou a basear-se no esmagamento da revolução e no assassinato de egípcios em nome da “proteção da República” e da “estabilidade”, apresentando o Egito como uma fortaleza sagrada a ser defendida em meio às guerras civis e aos abalos regionais — sobretudo contra ameaças internas.
O principal inimigo da nova república tornou-se, assim, o próprio povo egípcio, e a principal ameaça, qualquer forma de organização coletiva, política ou não. A missão primordial do Estado, apoiado pelo exército, passou a ser o desmantelamento dessas formas de organização, quaisquer que fossem.
Mesmo tendo obrigado os egípcios a renunciar às esperanças surgidas em 2011, o novo regime vive sob o medo permanente de um retorno da revolução — de um novo levante ou de uma “revolução dos famintos”. Isolado de seu povo, o regime entrincheirou-se em fortalezas no deserto que lembram as dos mamelucos, interagindo com a sociedade apenas por meio da repressão e da desapropriação.25
A operação Dilúvio de Al-Aqsa e o genocídio em curso contra o povo palestino lançaram uma luz ainda mais dura sobre o novo papel do Estado egípcio. Por suas ações e omissões, o regime demonstrou não apenas sua completa ausência de vontade política para adotar qualquer medida — inclusive de apoio à Palestina — que pudesse comprometer sua relação com os Estados Unidos, mas também sua falta de soberania para sequer tentar fazê-lo.
Em vez disso, parece aceitar — e até abraçar — seu papel diminuído na região: de antigo líder do mundo árabe e centro do terceiro-mundismo, o Egito tornou-se um Estado governado por um regime comprador alinhado aos Estados Unidos, garantidor da segurança de Israel, policial da Europa na região (encarregado de impedir migrações irregulares para o continente europeu) e incapaz de resolver disputas diplomáticas africanas, como a do Grande Barragem da Renascença com a Etiópia.
Em vez de reconhecer a ameaça à segurança nacional representada pela atual campanha militar israelense — marcada pelo genocídio e pela expansão regional da guerra — o Estado egípcio prioriza as ameaças internas, especialmente aquelas que colocam em risco direto sua legitimidade.
Nos últimos dois anos, essa lógica se traduziu em uma repressão nacional generalizada, criminalizando até mesmo os atos mais elementares de solidariedade com a Palestina, como manifestações. Mulheres — e até crianças — foram presas por exibirem faixas, criarem grupos estudantis pela Palestina, participarem de protestos não autorizados, arrecadarem fundos para bancos de alimentos palestinos ou convocarem manifestações pelas redes sociais. Cerca de 200 pessoas envolvidas nessas ações permanecem atualmente encarceradas.
Mais recentemente, o regime lançou uma campanha diplomática mesquinha contra países europeus que autorizaram manifestações relacionadas a Gaza diante de embaixadas egípcias.
Um dos aspectos da conivência do Estado egípcio com o genocídio israelense que provocou indignação internacional foi o papel do Grupo Al-Argani, utilizado para cobrar taxas exorbitantes tanto sobre mercadorias que entram em Gaza quanto sobre palestinos que fogem dos crimes de guerra. Essa situação levanta sérias questões sobre as razões pelas quais essa empresa — que opera milícias responsáveis, segundo relatos, pelo controle do norte do Sinai — exerce autoridade no lado egípcio da passagem de Rafah.
Crescem também as preocupações quanto à soberania do Sinai, ao uso de milícias armadas para controlá-lo e às recentes expulsões forçadas e demolições de moradias no norte do Sinai, que deslocaram habitantes e transformaram a região em uma faixa-tampão desabitada. Fora as cidades turísticas do sul (onde os egípcios continuam sujeitos a múltiplos postos de controle), o norte do Sinai permanece amplamente inacessível à população egípcia e praticamente ausente da cobertura midiática nacional.
O conjunto dessas medidas — somado à recusa categórica do regime em autorizar delegações egípcias, árabes ou internacionais a exercer pressão sobre Israel a partir do território egípcio, como ocorreu com a campanha da Marcha para Gaza em junho de 2025, proibida no Sinai — revela não apenas a brutalidade do regime, mas também sua cegueira estratégica. É legítimo perguntar por quanto tempo um país com uma população tão numerosa poderá ser governado dessa maneira.
Enquanto a República de Camp David sob Sadat mobilizava um nacionalismo de direita — resumido no slogan “Egito em primeiro lugar” — para afirmar que os interesses egípcios não se confundiam com os do mundo árabe, o regime atual nem sequer se dá a esse trabalho retórico. Alinhou-se a uma pequena elite que vive em enclaves fechados, completamente desconectada da esmagadora maioria dos egípcios.
Para as pessoas comuns, restam apenas duas opções: viver como cidadãos de segunda classe em seu próprio país e fornecer mão de obra barata aos lucros do capital estrangeiro (principalmente do capital do Golfo), sem direitos políticos ou sociais, sem acesso ao espaço público, sem sindicatos e sem sequer a possibilidade de formar associações de torcedores de futebol — ou arriscar a vida em migrações ilegais, frequentemente ao custo do afogamento nas costas da Líbia.
Nessa realidade profundamente injusta, persiste uma contradição fundamental: embora o Egito tenha sido o primeiro país árabe a normalizar suas relações com Israel, a normalização jamais conseguiu se enraizar na população. O exército — com cerca de meio milhão de soldados e historicamente definido por sua hostilidade a Israel, contra o qual travou quatro grandes guerras e exigiu gerações de sacrifícios patrióticos — voltou-se agora para dentro, contra o próprio povo.
Essa nova razão de ser do exército egípcio serve ainda mais aos interesses de Israel: se o exército é convencido de que toda ameaça à sua legitimidade provém do interior, e não da fronteira oriental — como foi ensinado a gerações de egípcios — ele não estará preparado para um confronto futuro com Israel quando este inevitavelmente ocorrer.
Essa dissonância entre a hostilidade popular persistente em relação a Israel e a política estatal conduz a episódios como o de junho de 2023, quando um jovem soldado egípcio de 22 anos, destacado na fronteira israelo-egípcia, matou três soldados israelenses, feriu outros dois e foi posteriormente morto. As autoridades egípcias recusaram-se a conceder-lhe funerais militares, temendo que um enterro público reunisse milhares de pessoas para homenagear um mártir, e impuseram à família uma cerimônia privada.
Um incidente semelhante ocorreu em 8 de outubro de 2023, quando um policial egípcio matou dois turistas israelenses em Alexandria. Esses episódios não são isolados. Em 1986, o soldado egípcio Suleiman Khater matou sete turistas israelenses no Sinai. Em maio de 2024, um empresário israelense foi morto a tiros em Alexandria; um grupo autodenominado Vanguardas da Libertação divulgou posteriormente um vídeo reivindicando o assassinato e dedicando-o às crianças de Gaza. Tais atos tendem a se repetir na ausência de uma paz verdadeira entre Egito e Israel — paz que permanece inacessível por razões históricas, lógicas, objetivas e existenciais.
Illustration by Fourate Chahal El Rekaby
Entre o cassetete e a bala
O genocídio israelense inaugurou um novo mundo, no qual a agressão aberta, a anexação de territórios soberanos e o massacre de populações civis atingiram níveis sem precedentes, e no qual já não existe sequer a pretensão de levar em conta a opinião pública — massivamente contrária aos crimes israelenses. Os ideais de democracia e liberdades individuais, por muito tempo percebidos como um horizonte normativo por amplos setores da região, revelaram-se uma fachada.
À medida que a militarização se intensifica, as tecnologias de vigilância se sofisticam e os métodos de repressão tornam-se cada vez mais extremos e absurdos, as massas se veem confrontadas com uma realidade brutal: sua única opção é suportar a coerção e a violência. Nenhuma “vantagem” lhes é oferecida — apenas o cassetete, às vezes sob a forma de balas.
O Egito constitui um exemplo gritante da visão imperialista para a região: a capitulação já não é suficiente. Os Estados Unidos e seu proxy fanático exigem agora uma submissão total, impondo aos povos da região estados permanentes de derrota auto-reproduzida.
O caráter explícito e assumido do genocídio em Gaza — e o apoio inequívoco que recebeu de duas administrações norte-americanas sucessivas, com a cumplicidade do Reino Unido e da União Europeia — marca a entrada em uma nova era. Nessa era, mulheres, homens e crianças são mortos da forma mais brutal, as leis da guerra são pisoteadas, e terroristas que se passam por soldados vangloriam-se abertamente de seus crimes.
Táticas terroristas, como o ataque com pager no Líbano em setembro de 2024, são celebradas por sua “precisão”, enquanto assassinatos seletivos de dirigentes militares e políticos em outros Estados soberanos são justificados. Ao mesmo tempo, o Estado genocida de Israel — em pleno genocídio — conduz uma guerra regional ampliada, intensifica a violência dos colonos na Cisjordânia, bombardeia repetidamente o Líbano, o Iêmen, a Síria, o Iraque e o Irã, e mantém tropas no Líbano e na Síria. Esse Estado funciona como um bastião de morte e destruição que busca impor uma submissão regional total, com o apoio militar e a cobertura diplomática dos Estados Unidos.
Enquanto a resistência libanesa sofre pressões crescentes para depor as armas, é essencial recordar que, na história da região, a rendição e a normalização sempre conduziram à perda de dissuasão e ao enfraquecimento da capacidade de resistir à agressão israelense. Não é exagero afirmar que os alicerces das atrocidades desencadeadas hoje foram lançados em 1978, quando o maior país árabe, dotado do maior exército e da maior população, retirou-se da luta.
Assim como as facções palestinas traçaram uma linha direta entre 1973 e 2023 ao escolher o 7 de outubro como data da operação Dilúvio de Al-Aqsa, existe um vínculo claro entre a assinatura dos Acordos de Camp David e a capacidade de Israel de cometer um genocídio em Gaza sem impedimentos.
É isso que explica por que, ao retornar ao Líbano após cumprir quarenta anos de prisão na França, o revolucionário Georges Abdallah sublinhou o papel central do Egito na região, declarando:
A condição da liberdade é convocar as massas árabes a descer às ruas.
A condição da liberdade é que as massas egípcias desçam às ruas.
As massas egípcias.
As massas egípcias.
Illustration by Fourate Chahal El Rekaby
Libertação árabe da ocupação árabe
Ao longo dos anos, a causa palestina foi progressivamente reduzida e fragmentada, a ponto de a agressão israelense na Cisjordânia ser apresentada como distinta da chamada “guerra Israel-Gaza”, e a guerra de Israel contra o Líbano ser tratada como um conflito isolado, assim como a ocupação da Síria. A dimensão árabe histórica da luta palestina foi sistematicamente apagada.
Gaza merecia — e ainda merece — o tão esperado despertar árabe, quase mítico. Mesmo os imaginários mais sombrios teriam dificuldade em conceber horrores maiores do que aqueles que Gaza sofreu nos últimos anos. Ainda assim, em vez de se erguerem à altura do momento e de confrontarem — ou ao menos mitigarem — essas atrocidades, os Estados árabes fracassaram.
Essa inação explica-se pelo fato de que a primeira pedra desse crime foi lançada há décadas: a região foi moldada de tal maneira que uma catástrofe dessa magnitude não suscitaria a indignação coletiva necessária para pôr-lhe fim — nem sequer para reduzir sua intensidade. Essa história explica por que Gaza foi deixada quase sozinha diante da expressão mais brutal do imperialismo.
Não houve um único momento decisivo — embora os Acordos de Camp David de 1978 se aproximem disso —, mas um deslizamento progressivo ao longo de décadas de normalização, durante as quais o mundo árabe escolheu retirar-se da equação e transferir toda a responsabilidade da causa palestina ao próprio povo palestino. Esse recuo foi apresentado como uma forma de “empoderamento”, ao mesmo tempo em que se interiorizava a ideia falaciosa de que poderiam existir soluções individuais para um problema fundamentalmente coletivo.
Cada país árabe, absorvido por suas especificidades locais, deixou a Palestina carregar sozinha o fardo imenso do confronto com uma entidade implantada estrategicamente para perpetuar projetos imperialistas de dominação, subdesenvolvimento e repressão das massas. Nesse contexto, os palestinos são frequentemente colocados em um pedestal, descritos como sobre-humanos — um “povo de gigantes”, “invencível” e “inquebrantável” — oferecendo assim aos povos árabes uma justificativa moral para se eximirem de sua responsabilidade histórica de compartilhar o fardo, em prejuízo de todos.
Ao atribuir aos palestinos um destino de martírio inevitável, evita-se reconhecer que o sacrifício deve ser compartilhado. Mais ainda, ao lhes confiar sozinhos uma luta que é histórica, material e existencialmente coletiva, os Estados árabes impuseram aos palestinos a tarefa colossal de libertar a região — e o mundo — de um de seus atores mais bárbaros, ao preço das perdas mais pesadas (ao lado das resistências libanesa e iemenita).
Essa postura — feita de testemunho passivo e niilismo — reflete o estado interno das sociedades árabes. Revela a forma como os árabes se percebem em suas próprias lutas: desarmados, desorganizados e apartados dos centros de poder. A exaltação da figura do palestino mitificado relega os árabes ao papel de espectadores, e não de agentes da história.
Na realidade, já existe uma forma específica de arabismo: o arabismo contrarrevolucionário e reacionário, que busca inaugurar uma era “pós-massas” alinhada à indiferença das classes dominantes globais em relação à opinião pública. Os regimes árabes reacionários que propagam essa visão sempre foram os principais inimigos do projeto pan-árabe socialista: consolidaram seu poder aliando-se ao imperialismo para esmagá-lo.
Assim como a chamada “Primavera Árabe” foi um fenômeno profundamente árabe, a contrarrevolução que se seguiu também o foi. Hoje, a coordenação securitária entre regimes árabes compradores opera de forma sistemática: um palestino expulso ou proibido de entrar na Jordânia não poderá ingressar no Egito; um dissidente egípcio poderá ser preso na Síria, extraditado e encarcerado nos Emirados Árabes Unidos. Protegidos por essa coordenação securitária e sustentados por um aparato midiático árabe reacionário unificado, os fluxos de capital árabe são extraídos e acumulados por meio da expropriação das massas árabes.
Ainda assim, frente a esse arabismo reacionário, existe também a classe despossuída das massas árabes, que compartilha um destino comum para além das fronteiras nacionais e cujos interesses são fundamentalmente opostos aos das classes dominantes. Reconhecer esse destino compartilhado exige uma análise rigorosa — e não a sátira ou a condenação moral abstrata — quando a indignação popular e a consciência política não se traduzem em mobilizações de massa visíveis.
Historicamente, os momentos de mobilização decisiva — Tunísia e Egito em 2011, o levante jordaniano de 1956 contra o Pacto de Bagdá, as lutas anticoloniais, a Revolução Iraniana de 1979 — sempre foram desencadeados por crises locais imediatas, vividas diretamente. Esses momentos surgem quando os regimes se encontram enfraquecidos, divididos ou desorganizados, abrindo brechas que os povos podem explorar. É desmobilizador explicar a inação atual por traços de caráter ou por uma suposta incapacidade intrínseca, em vez de pelos processos históricos que produziram essa situação.
Essa dinâmica contrasta fortemente com os contextos ocidentais, onde o protesto — mesmo reprimido — ocorre em condições políticas fundamentalmente distintas. Nos últimos dois anos, os árabes foram por vezes sutil — ou explicitamente — repreendidos por não protestarem “como no Ocidente”, esquecendo-se de que enfrentam formas de violência estatal incomparavelmente mais severas.
Isso coloca uma questão mais profunda: por que a maioria dos Estados árabes é governada por níveis extremos de repressão? Por que os dirigentes aliados do Ocidente não são denunciados como ditadores, mas, ao contrário, equipados com tecnologias de vigilância, armas e treinamentos avançados para impor essa repressão? Seria realmente porque as populações árabes seriam submissas ou covardes?
Se os árabes fossem intrinsecamente passivos, tais sistemas maciços de coerção, instituições disciplinares e aparatos de segurança não seriam necessários para mantê-los na paralisia política. A própria escala da repressão prova o contrário: uma insurreição popular genuína, expressando a vontade democrática dos povos da região, constituiria uma ameaça direta aos interesses imperiais norte-americanos. A realização dessa vontade provocaria uma crise profunda da ordem política e econômica mundial.
“Muito aconteceu, ó pátria. Restou apenas um pouco.”
فات الكتير يا بلدنايابلدنا مابقاش إالا القليل - من اغاني فرقة أولاداولاد الأرضالارض
(Uma canção popular de resistência de Suez)
À medida que a causa palestina foi reduzida, as categorias “árabe” e “palestino” passaram a ser redefinidas segundo linhas identitárias, raciais ou étnicas, e não políticas. Ainda assim, permanece evidente que a história do mundo árabe na era da chamada modernização é também a história da causa palestina. A resistência histórica ao sionismo sempre foi fundamentalmente árabe — inclusive em suas dimensões islamistas.
É impossível extrair histórias árabes distintas do contexto da colonização da Palestina e do projeto sionista imperial, pois os árabes, assim como os palestinos, são alvos desse projeto.
A luta na região, fora de Gaza, é o reflexo do que ali ocorre. As sociedades precisam escolher: tornar-se sociedades de rendição ou tornar-se sociedades novas, resistentes e confrontacionais. É profundamente injusto que Gaza suporte o peso mais esmagador dessa realidade brutal, enquanto outros países árabes, inclusive o Egito, experimentam apenas seus reflexos.
O destino dos povos da região está intrinsecamente ligado, queiram ou não reconhecê-lo. No cerne do que se desenrola atualmente encontra-se uma luta de classes, inscrita em um quadro colonial de povoamento e genocida. Se a Palestina é uma causa universal — para os povos livres do mundo, para os muçulmanos, para os condenados da terra e para todos aqueles que se recusam a aceitar um mundo monstruoso no qual tais horrores persistem contra a vontade da maioria — sua essência e seu caráter permanecem, histórica, material e existencialmente, árabes.
As opiniões expressas neste artigo são exclusivamente dos autores e não refletem necessariamente as visões ou posições das Forças Armadas Nacionais da Irlanda do Norte (TNI).
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